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Sinto-me Só

24 jul

“Tenho 5 anos, você tem 3. Eu sei ler, você não sabe falar. Eu sei amarrar os meus sapatos, você não consegue calçar uma meia. Você ainda dorme no berço.
Não pode vir comigo. Quanto mais crescemos, mais nos afastamos.
(…) Você e eu temos os cabelos negros de nossa mãe, o seu um pouco mais fino que o meu. Você tem um nariz mais estreito e refinado que eu e suas faces são altas. Meu pai diz que você parece com a minha mãe, e que eu pareço com ele. Isso significa que você parece uma menina, e eu pareço um menino. O que não vou entender até bem mais tarde é que isso significa que você é bonito e eu… sou só um menino. Quando vamos ao supermercado e você fica sentado no carrinho, mulheres param meu pai para dizer que você é simplesmente lindo. Elas nunca fizeram isso por mim. ‘Ele tem essa aparência porque é puro’, meu pai vai escrever, ‘é intocado pelas coisas do mundo. Tudo o que ele sente, tudo o que ele é, vem de dentro de si. Isso é o que significa o autismo. È estar confinado em si mesmo, ser seu próprio mundo.’”

Sinto-me Só

Sinto-me só, é um livro biográfico, escrito pelo jornalista Karl Taro Greenfeld, sobre sua vida e convivência da sua família com o seu irmão mais novo, Noah, um portador de Autismo severo.
Não é a primeira biografia neste estilo que leio, mas devo admitir que este relato foi muito mais profundo e forte do que os outros, talvez pelo fato de não ser tratado com o humor leve presente nos demais, talvez pelo fato da severidade do caso, ou ainda a presença continua do histórico das correntes científicas de tratamento desta doença, que era novidade na década de 60, quando Noah nasceu.
O relato mistura memórias do jovem Karl com escritos dos diários mantidos pelo pai (também escritor e roteirista Hollywoodiano). São tantas palavras e passagens marcantes, retratos de rotina diária tão esgotante desta família nada ortodoxa. Karl e Noah são filhos de um judeu e uma imigrante japonesa, traços culturais mais do que notáveis na educação e na trajetória desta família.
São relatados os primeiros sintomas que foram notados, passando pela descoberta do autismo e algumas correntes ideológicas ligadas ao seu tratamento. E tenho que dizer é simplesmente chocante, tanto pelo fato de entender a frustação dos pais em relação a um filho que não tem pespectiva de falar (ou utilizar qualquer linguagem de comunicação), tanto pelo fato dos tratamentos ou culparem os pais pela doença ou utilizarem mals tratos físicos e psicológicos para praticamente “adestrarem” as crianças.
É comovente o relato delicado de Karl sobre os seus amigos imaginários, entre eles um Noah falante e rizonho, que passaram a aparecer desde o dia que Karl tomou conhecimento (aos 5 anos) de que seu irmão tinha um problema sério.
Você fica na expectativa, torcendo pelo desenvolvimento de Noah, desejando que ele consiga sair do mundo fechado e inexplorado que é a sua cabeça.
Chorei de alegria quando Noah consegue pronunciar sua primeira palavra, e mais ainda com o final pra lá de surpreendente (queria poder comentar sobre o final, mas novamente não seria justo com vocês, por isso, mas uma vez, silencio).
Uma história da batalha real contra o autismo, uma verdadeira lição de vida, de erros e de acertos, pelos olhos de uma família que desejava apenas uma interação com seu filho/irmão.

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Nome do Livro no Brasil: Sinto-me Só
Nome Original:   Boy alone: a brother’s memoir
Escrito por:  Karl Taro Greenfeld
Publicado no Brasil em: 2009
Editora:  Planeta
Nº de Páginas: 352

Capa original:

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