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Deu no New York Times

28 jul

“Na verdade, me parece que o problema fundamental na questão nuclear é um profundo desencontro de percepções entre brasileiros e estrangeiros. A atitude brasileira, despida da linguagem grandiloqüente que o Itamaraty sempre emprega, é que, “Puxa, somos um povo amistoso e generoso, que nunca foi à guerra com ninguém, a não ser o Paraguai no século XIX, então por que devemos ser tratados da mesma forma que os iranianos e os norte-americanos? É um insulto vocês duvidarem de nossas garantias de que não estamos fazendo nada ilegal”.
Essa posição, contudo, ignora o passado ambivalente que o levantou pela primeira vez dúvidas sobre as intenções do Brasil. Ela ignora, por exemplo, os acordos nucleares clandestinos do Brasil com o Iraque de Saddam Hussein durante o governo Figueiredo e a indisposição deste, até 1997, para assinar o Tratado de Não-Proliferação de Armas Nucleares. Ignora o papel do brigadeiro Hugo Piva e dos 21 cientistas foguetes brasileiros que ele levou para o Iraque no que se dizia ser um “esforço privado” para ajudar Saddam Hussein. Ignora a existência do sítio para testes nucleares construído secretamente em Cachimbo, no Pará, e que só foi desmantelado em 1990, depois de exposta a existência de quatro programas nucleares clandestinos separados, cada um deles operado por um ramo das Forças Armadas e empregando uma tecnologia diferente. “

Deu no New York Times

Num dos textos inéditos deste livro, o que discorre sobre a cultura brasileira, o jornalista americano Larry Rohter relata que jamais esqueceu um aviso colocado pelo dono de um restaurante do Leblon na parede do local: “É terminantemente proibido fazer batucadas nas mesas, cantar ou tocar instrumentos musicais enquanto a clientela está comendo”, alertava a plaquinha. “Só no Brasil um aviso assim precisava ser colocado, porque só no Brasil uma exuberância tão impossível de conter transbordava de um cenário formal para a vida cotidiana”, conclui Rohter.

Este é um dos méritos de Deu no News York Times, é o primeiro livro de Larry Rohter, correspondente do jornal americano no Brasil entre 1999 e 2007. Muitas vezes somente um olhar de fora é capaz de perceber que alguns elementos do nosso cotidiano mais banal não têm nada de banal.
Mas Rohter vai muito além de observações dessa ordem neste livro, que reúne textos inéditos sobre os temas da sociedade, política, ciência, tecnologia, Amazônia e cultura. Valendo-se de um estilo coloquial, saboroso e rico em informações, ele analisa com visão crítica tópicos que estão na pauta do Brasil atual, como corrupção, ética, raça e meio ambiente. Deu no New York Times traz ainda alguma das melhores matérias produzidas por Rohter para o jornal nova-iorquino, além de seus comentários sobre elas.
Na apresentação, o autor conta que esteve pela primeira vez no Brasil em 1972. Ficou tão fascinado que decidiu voltar ao país nos anos seguintes. Dito e feito. Entre o final da década de 1970 e o início dos anos 1980, ele cobriu o Brasil para o jornal The Washington Post e para a revista Newsweek. Foi em função disso que se tornou correspondente do New York Times, anos depois. Rohter caucula que, somadas todas as suas viagens à Amazônia, deve ter passado mais de um ano na região.
Toda essa experiência serve de base para este livro, uma reflexão contundente e atual escrita por um estrangeiro que conhece o Brasil real como poucos brasileiros.

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Nome do Livro: Deu no New York Times
Escrito por: Larry Rohter
Publicado em: 2008
Editora: Objetiva
Nº de Páginas: 416

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